O ambiente em ruas comerciais e em shoppings centers tradicionais em Los Angeles, uma das maiores cidade dos Estados Unidos, não é mais o mesmo.

As comuns filas nos caixas em lojas do tipo da Macy´s, especialmente em época de grande liquidação, foram trocadas por corredores vazios, até mesmo nos finais de semana.

O número de vendedores em lojas de departamento, aquelas com dois, três andares, dá para contar nos dedos.

O Westside Pavillion, um dos shoppings mais tradicionais de Los Angeles, localizado na Pico Boulevard, está à venda.

Já perdeu uma de suas âncoras, a Nordstrom.  A outra, a Macy´s, deu início a uma grande liquidação para fechar as portas ainda neste mês.

O Westside Pavillion, inaugurado na década de 70, é apenas um exemplo do que se vê nos quatro cantos dos Estados Unidos.

O banco Credit Suisse prevê, em um de seus relatórios, o fechamento de 25% dos shoppings nos Estados Unidos até 2022.

O número de shoppings no mercado norte-americano é aproximadamente 20 vezes maior do que o do Brasil. Aqui não chega a 600. Lá, está próximo de 12 mil.

Se a estimativa do Credit Suisse estiver correta, o Westside Pavillion é apenas um dos cerca de 3 mil shoppings que devem desaparecer nos EUA nos próximos cinco anos.

A lista de grandes e médias lojas que estão encolhendo nos Estados Unidos é extensa. Fazem parte dela Macy´s, J.C Penney, Sears, Abercrombrie & Fitch, GAP, Aéropostale, American Eagle.

No início de 2016, a Macy´s anunciou o  fechamento de 140 lojas. A J.C Penney falou em 138.

A Toy ´R´Us, que já foi referência em loja de brinquedos no EUA, acaba de anunciar planos de vender ou fechar 800 lojas, após seis décadas de atividade.

Uma combinação de fatores explica o que está acontecendo no mundo do varejo norte-americano, de acordo com especialistas ouvidos pelo site Varejoemdia.

  • O e-commerce, com destaque para o fenômeno Amazon, a gigante do varejo online, não para de conquistar clientes.
  • Há um excesso de lojas e shoppings centers nos Estados Unidos.
  • O consumidor norte-americano mudou hábitos de consumo.

Desde a crise de 2008, com a quebra do banco Lehman Brothers, o consumidor norte-americano está mais cauteloso com as compras de roupas, sapatos, artigos para a casa.

Há um direcionamento maior de gastos com restaurantes, hotéis, viagens, de acordo com várias pesquisas realizadas nos EUA.

As vendas do comércio eletrônico representam aproximadamente 8,5% do faturamento total do varejo norte-americano, de acordo com o Departamento de Censo dos  Estados Unidos.

No caso de algumas categorias, como vestuário, calcados e móveis, porém, esse número já chega perto de 30%.

Para Márcia Sola, diretora da unidade de shopping, varejo e imobiliário do Ibope Inteligência, os problemas enfrentados pelos shoppings nos EUA decorrem de oferta acima da demanda e problemas conceituais, inclusive de ancoragem.

“Para piorar, muitos malls estão perdendo suas âncoras, que são, na maioria dos casos, lojas muito maiores do que as suas equivalentes no Brasil, com áreas ao redor de 10 mil metros quadrados”, diz.

Silvio Laban, coordenador executivo de marketing do Insper, diz que a crise na indústria de shoppings nos Estados Unidos é fruto da falta de diferenciação dos empreendimentos e de experiências de compra pouco atraentes.

“Não é o comércio eletrônico que mata shoppings, e sim outros shoppings”, afirma.

E no Brasil, o que deve acontece?

Veja o que dizem dois especialistas em varejo.

Nelson Barrizzelli

“Os shoppings estão em fase de expansão no Brasil. Muitos municípios com mais de 500 mil habitantes ainda não possuem shoppings.

Nos Estados Unidos, as lojas de departamento começaram a entrar em processo de encolhimento no final dos anos 70 e início dos anos 80.

A Macy´s chegou a fechar lojas em Nova York e abrir outras no formato magazine com uma linha mais soft, quando a característica da rede em seu apogeu era vender de alfinete a avião.

A concorrência entre os shoppings chegou a tal ponto que o mercado de shoppings atingiu a sua maturidade e, portanto, começou a encolher. Tudo tem um ciclo de vida.

Aqui no Brasil ainda há muito espaço para shoppings. Agora, estamos começando um ciclo de comércio eletrônico, que é um processo de venda sem loja, e por aqui a crise provocou mudança de hábitos de consumo.

As lojas precisam se tornar mais eficientes, cair na real e trabalhar em um país onde há cinco países dentro dele, e cada um com público com características diferentes.

Ainda tem lojista no Brasil que coloca o foco de luz voltado para o cliente, e não para o produto na vitrine.’’

Michel Michel Cutait, diretor da Make it Work.

“A realidade norte-americana nem de longe pode ser aplicada ao Brasil. Primeiro, porque eles têm 20 vezes mais shoppings do que o Brasil.

Os shoppings que estão fechando, muito provavelmente, são simples, sem graça e sem atrativo, a maioria somente com lojas âncora ou de departamento.

O consumidor americano está saturado de compras, produtos e consumo inútil, já sofrem até de transtornos compulsivos de acumulação.

Alguns desses empreendimentos que estão fechando estão se transformando em novas soluções urbanas, como empreendimentos mistos, comerciais e residenciais.”

No Brasil, depois da mais longa e intensa crise que o país já enfrentou, as empresas de shoppings sofreram um baque, assim como as de todos os outros setores.

A BR Malls, maior empresa de shoppings do país, registrou perda de cerca de R$ 652 milhões de outubor a dezembro do ano passado. O processo de troca de lojistas, de acordo com a empresa, teve impacto no resultado, assim como outros fatores.

Fica a dica de Cutait.

“O Brasil ainda oferece muitas oportunidades para o setor de shoppings. Mas, neste momento, os empreendedores precisam ser conservadores, apostar em projetos que se incorporem às soluções urbanas, que ofereçam os produtos e os serviços que o mercado necessita e deseja.

E que apostem em soluções tecnológicas para incrementar o relacionamento com os clientes, que caprichem nas operações que proporcionam experiências para os consumidores, e que sejam pacientes para ver a economia brasileira voltar a crescer.”

A Abrasce, associação que reúne os shoppings no Brasil, prevê crescimento real de 3% para o setor neste ano e a inauguração de 23 shoppings. Fusões e aquisições entre empresas do setor serão mais intensas.

Colaborou Dario Palhares

 

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Escrito por Fátima Fernandes

Jornalista especializada em economia, negócios e varejo

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