Em um dos polos de confecção mais tradicionais do país, o bairro do Bom Retiro, em São Paulo, há 65 lojas fechadas, considerando as nove ruas mais movimentadas na região.

Na rua José Paulino, a principal do bairro, há 16 imóveis fechados. Na Júlio da Conceição, 12 e, na Rua da Graça, 11.

Esse número já foi maior. Na época de Natal, em dezembro de 2017, havia 94 lojas fechadas e, em abril do ano passado, 85.

O levantamento é da CDL (Câmara de Dirigentes Lojistas) do Bom Retiro. O bairro reúne cerca de 1.700 lojistas, dos quais 1.400 são fabricantes de roupas.

Apesar de o número de imóveis vagos ter diminuído no Bom Retiro neste mês, os lojistas dizem que não têm muito o quê comemorar.

Em início do outono e do lançamento da coleção de inverno, as lojas estão à caça de clientes.

Nos últimos dois meses, os lojistas que costumam se abastecer no bairro sumiram.

“Ninguém está entendendo o que está acontecendo”, afirma Stefanos Anastassiadis, diretor da Controvento, confecção há 50 anos no bairro.

As vendas estavam retomando devagar, diz ele, desde o segundo semestre do ano passado. “Em março, todo mundo achava que as vendas iriam explodir. Não aconteceu.”

As incertezas em relação às eleições e ao comando do país, as reformas estruturais que não aconteceram, o elevado desemprego e a escassez de crédito são os motivos apontados por empresários para a retração nas vendas.

“Os lojistas aqui do bairro estão falando em queda de 10% nas vendas em relação à igual período do ano passado, quando a expectativa era crescer”, afirma Nelson Tranquez, presidente da CDL do Bom Retiro.

O bairro do Bom Retiro é um termômetro do desempenho de lojas de roupas, especialmente femininas e de moda, pois abastece o comércio de todo o país.

De acordo com a CDL, as confecções da região empregam cerca de 50 mil pessoas. Em época normal de vendas, recebe 30 ônibus lotados de clientes por dia e de todas as partes do país.

A área fica mais movimentada no início da semana. “Ontem (16 de abril) e hoje (17/04), o movimento está fraco”, diz Tranquez.

As notícias envolvendo políticos famosos com corrupção têm efeito negativo no consumo, de acordo com Ronald Masijah, presidente do Sindivestuário, sindicato que reúne cerca de 10 mil confecções no Estado de São Paulo.

“Mesmo quem tem algum poder de compra, quando vê as notícias, fica morrendo de medo de gastar, pois, mesmo empregado, não sabe se terá emprego no dia seguinte”, diz.

Apesar do cenário político incerto, Anastassiadis diz que os lojistas estão reclamando muito da falta de crédito e dos juros altos cobrados pelos bancos.

“A Selic está em queda (6,75% ao ano), mas os bancos continuam cobrando taxas de um ano e meio atrás. Clientes do interior dizem que o dinheiro sumiu e por isso eles cortaram as compras”, diz o diretor da Controvento.

A ameaça de impeachment do presidente Michel Temer e a saída de Henrique Meirelles do Ministério da Fazenda trouxeram ainda mais instabilidade para a economia.

“Tudo isso se transformou em uma ducha de água fria no consumo. Ano de Copa e de eleições também tira dinheiro do consumidor, que gasta mais com viagens”, diz Anastassiadis.

Para Marcel Caparoz, economista da RC Consultores, o ambiente político, principalmente em ano de eleição presidencial, é responsável, geralmente, por certa instabilidade na economia.

A dificuldade em determinar o cenário econômico, em sua avaliação, contribui para a elevação das incertezas, impactando diretamente o índice de confiança do consumidor e dos empresários.

“A tomada de decisão no momento de consumir ou investir fica mais difícil. E este ambiente de baixa confiança, impede uma retomada mais acentuada da economia”, afirma Caparoz.

A CNC (Confederação Nacional do Comércio) reduziu neste ano a projeção de crescimento do setor para este ano de 5,2% para 5%.

Para os economistas da CNC, a recuperação do comércio depende da melhora do emprego e da queda de juros para o consumidor.

Enquanto os fatores macroeconômicos não avançam, alguns lojistas correm atrás de conveniência, experiência e bom atendimento na disputa pelos raros clientes.

Uma das mais antigas confecções do Bom Retiro, a Loony, especializada em jeans, acaba de inaugurar novo espaço na sua loja da rua José Paulino.

A loja está agora ligada ao shopping Bom Retiro e os novos provadores estão adaptados para clientes com necessidades especiais.

Foto: Divulgação/ Loony

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Escrito por Fátima Fernandes

Jornalista especializada em economia, negócios e varejo

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