Numa economia com instabilidade política, inflação alta, dólar caro e juros elevados é praticamente impossível fazer projeções otimistas para o consumo.

Economistas e representantes do governo, aliás, estão revendo para baixo o crescimento do PIB (Produto Interno Bruto) brasileiro, que não deve passar de 2,5% em 2018.

Tudo indica que as famílias vão continuar restringindo os gastos e, portanto, as lojas vão vender menos e as indústrias, produzir menos.

Mas em meio a todo esse ambiente desfavorável ao consumo há um indicador capaz de deixar os lojistas mais otimistas em relação aos negócios a partir de 2019.

Diferentemente de anos em que o país também teve de conviver em clima nada propício para o consumo, desta vez a inadimplência está relativamente baixa e sob controle.

Dados do Banco Central (BC) de maio mostram uma inadimplência no crédito pessoal de 3,9% nos atrasos até 90 dias e de 3,6% nos acima de 90 dias.

No financiamento para aquisição de veículos, a inadimplência é de 6,9% e 3,7%, respectivamente, no mesmo período.

No passado, esses percentuais já foram bem maiores, ficando perto de 5% no crédito pessoal e de 9% no financiamento de veículos em 2016, por exemplo.

“Apesar da fortíssima crise econômica que o país enfrentou no último triênio, com progressiva contração de crédito e massa de salários, hoje há algo diferente na economia brasileira”, diz Fabio Silveira, sócio-diretor da MacroSector Consultores.

O consumidor de agora é muito diferente daquele do final da década de 90 e início dos anos 2000, época em que grandes redes de lojas chegaram a quebrar por conta da elevada inadimplência, que chegou à casa de dois dígitos.

Hoje, de acordo com Silveira, o consumidor brasileiro está mais maduro, esperto, não entra em financiamento somente porque há uma campanha com oferta de juros menores.

As redes de lojas também estão mais equipadas com tecnologias capazes de identificar com mais precisão os potenciais maus pagadores.

Há ainda outro motivo, e até curioso, de acordo com Silveira, que tem levado o consumidor a evitar atrasos no pagamento das prestações: a grande burocracia para limpar o nome.

“Por mais incrível que possa parecer, a burocracia brasileira tem ajudado a manter a inadimplência baixa. É preciso tempo e muita paciência para tirar o nome dos cadastros de pessoas com dívidas em atraso”, afirma Silveira.

Após pagar uma dívida, o consumidor deve ter seu nome excluído de cadastros negativos no prazo máximo de cinco dias úteis, de acordo com o Código de Defesa do Consumidor.

Mas nem sempre isso acontece.

“O consumidor já sabe, por experiência própria, como é difícil voltar para o mercado de consumo. Ficar excluído do mercado de crédito é constrangedor e um transtorno para a vida do cidadão, que fica obrigado a pagar tudo com dinheiro vivo.”

Em um ambiente como este, há 20 anos, o consumidor brasileiro estaria, de acordo com Silveira, ‘torrando’ o cartão de crédito. Isso acabou.

CUSTO DO DINHEIRO

Apesar de o país ter uma das mais altas taxas de juros do mundo, elas estão em queda.

“Os juros não diminuíram como os brasileiros desejariam, mas caíram, e, ainda assim, ninguém saiu comprando televisor a rodo para a Copa do Mundo, como se via no passado.”

E é esse cidadão mais cauteloso, não inadimplente, que deve sustentar o mercado de consumo em 2019 e 2020, na avaliação do sócio-diretor da MacroSector.

“Hoje, o consumidor se abstém de comprar porque não quer se arriscar, e também porque tem de fazer escolhas por conta do orçamento mais apertado. Ele está aguardando o ciclo de crescimento econômico e retomada de crédito para voltar a comprar”, diz.

Para Silveira, após o tumulto provocado pelas eleições, a volta do consumidor ‘ficha limpa’ para o mercado de crédito pode ser rápida.

“Com estabilidade política e cambial, o consumidor vai voltar a exercer o seu papel.”

Para a equipe de economistas da MacroSector, o varejo deve crescer 2,5% neste ano e entre 3,5% e 4% em 2019.

No início deste ano, as projeções eram mais otimistas, chegando a números próximos de 4%.

“Os desarranjos gerados na economia por conta da inflação alta, greve dos caminhoneiros e seus efeitos, dólar caro e turbulência política esfriaram a empolgação do mercado de crédito.”

Para Silveira, neste ano, tudo indica que o setor de supermercados deva ter desempenho melhor do que o de eletroeletrônicos e combustíveis.

“Os consumidores deverão gastar mais com produtos de primeira necessidade em 2018. No ano que vem já deve ser um pouco diferente”, diz.

O setor eletroeletrônico deve ganhar impulso na medida em que o PIB avança e cresce a procura e a oferta de crédito no mercado.

“O setor eletroeletrônico tem um multiplicador maior do que o setor de  alimentos. Se o PIB cresce 1%, as vendas de eletroeletrônicos aumentam 4% e, as de alimentos, de 1% a 2%”, diz.

LEIA MAIS: Comércio cresce, mas consumidor está mais seletivo

MAIS INFORMAÇÕES SOBRE O VAREJOhttp://www.macrosector.com.br/

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Escrito por Fátima Fernandes

Jornalista especializada em economia, negócios e varejo

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