Antes fortemente concentrados nos grandes centros urbanos, os shopping centers “descobriram” o interior do Brasil na segunda metade da década passada.

A tendência ganhou corpo e provocou mudanças profundas e definitivas no raio de atuação do setor.

Em 2013, pela primeira vez na história, as cidades pequenas e médias passaram a contar com um contingente de centros de compras ligeiramente superior ao das capitais.

Desde então, segundo indicadores da Associação Brasileira de Shopping Centers (Abrasce), a diferença só tem aumentado.

O interior soma, atualmente, 320 shoppings, o correspondente a 54,51% do total nacional, fatia que tende a engordar para 55,44% até o fim do ano, com as 21 inaugurações previstas, das quais apenas sete nas capitais.

“Dois fatores foram decisivos para essa inversão de prioridades: a percepção do grande potencial de consumo a ser explorado em localidades menores e o boom imobiliário, que tornou inviáveis os preços dos terrenos nas capitais e demais grandes cidades”, afirma Márcia Sola, diretora da unidade de shopping, varejo e imobiliário do Ibope Inteligência.

A interiorização era, portanto, o caminho lógico e natural a ser seguido.

Colocada à prova, no entanto, a teoria teria a sua eficácia seriamente questionada por fatores conjunturais e operacionais.

A forte recessão que atingiu o país a partir de janeiro de 2015, quando teve  início um ciclo inédito de oito trimestres consecutivos de queda no PIB, e erros cometidos nos projetos e na implantação dos novos centros de compras causaram sérios problemas a esses empreendimentos.

Na esteira desse processo, o varejo ganhou, em meados da década, uma nova nomenclatura, “shoppings em consolidação”.

“Antes, eles atingiam o ponto de equilíbrio após o seu segundo Natal. Hoje, são necessários de quatro a cinco anos para que se consolidem, ou seja, saiam do vermelho”, diz Márcia.

O dado em comum entre esses estabelecimentos são taxas de vacância absurdas.

De acordo com um levantamento divulgado há um ano pelo Ibope Inteligência, os 20 centros de compras inaugurados em 2016 operavam com 55% de sua área bruta locável (ABL) desocupada.

A situação era melhor, mas igualmente preocupante, nos 81 shoppings abertos entre 2013 e 2015, que apresentavam ociosidade média da ordem de 45%.

“Estamos concluindo a nova pesquisa sobre shoppings em consolidação”, informa a executiva do Ibope Inteligência. “Os números indicam uma ligeira melhora em 2017.”

A crise dos shopping centers brasileiros teve seu epicentro em Sorocaba (SP), que será o tema da segunda reportagem desta série.

Localizada a cem quilômetros da capital paulista, a cidade de 659,8 mil habitantes ganhou nada menos do que quatro empreendimentos do gênero nos últimos oito anos.

A “overdose” causou o fechamento de um centro de compras, a interrupção das obras de outro e a elevação das taxas de vacância dos sete remanescentes.

Sorocaba teve, assim, uma ideia das agruras enfrentadas pelos lojistas dos Estados Unidos, onde 25% dos shoppings correm o risco de fechar as portas até 2022, de acordo com estudo do banco Credit Suisse, divulgado em 2017.

“Lá, como no Brasil, a falta de diferenciação e a oferta de experiências de compra pouco atraentes estão cobrando seus preços”, diz Silvio Laban, coordenador executivo de marketing do Insper, que ministra, em parceria com a Abrasce, o curso Shopping Center Management Program.

“O que está matando shoppings ao redor do mundo é a comoditização. Quem não apostar num maior equilíbrio entre lojas e serviços, sobretudo alimentação e entretenimento, é candidato a se tornar vítima desse processo de seleção.”

Alguns dos erros cometidos pelos centros de compra surgidos nos últimos anos são, contudo, bem mais graves do que um mix inadequado de compras, lazer e diversão.

Como observa Márcia Sola, muitos deles foram instalados em periferias, opções que, com frequência, não caíram no agrado de seus públicos-alvos.

Outros, simplesmente, nem deveriam ter saído do papel.

“Há casos de empresários que resolveram construir shoppings em terrenos próprios como forma de presentear as suas comunidades”, diz ela.

“Só que, por vezes, o município não comporta o projeto devido à concorrência já instalada ou pelas reduzidas dimensões do mercado local. Rio Grande, Limeira e Boa Vista são alguns exemplos de cidades que deveriam ter menos shoppings ou mesmo nenhum.”

Outra séria candidata à lista é Picos, no centro-sul do Piauí, que está prestes a se tornar o único município brasileiro com menos de cem mil habitantes (76.928 em 2017, segundo o IBGE) a contar com dois centros de compras.

Em atividade desde novembro de 2016, o Picos Plaza Shopping contabiliza 9,3 mil metros quadrados de ABL, duas lojas âncoras (Americanas e Le Biscuit), duas praças de alimentação, duas praças de eventos, três salas de cinema, um boliche e estacionamento para mais de 500 veículos.

Em 3 de maio próximo, após sucessivos adiamentos, o pioneiro ganhará a concorrência do Piauí Shopping Center, com 25 mil metros quadrados de ABL, três salas de cinema, praça de alimentação com 400 mesas e 2.600 cadeiras, pista de kart e estacionamento com mais de mil vagas.

“A cidade é pequena, mas é o principal polo de referência de 52 municípios espalhados num raio de cerca de cem quilômetros. Diariamente, Picos recebe mais de 20 mil visitantes”, argumenta Patrezy Bueno, diretor de marketing do Picos Plaza.

O potencial de consumo da região é, de fato, promissor, mas dois shoppings talvez sejam demais. Embora ofereça baixos custos – aluguéis ao redor de R$ 1.500 e condomínio de R$ 950 por mês –, o Picos Plaza apresentava, no fim do último ano, taxas de vacância superiores a 50%.

Na mesma linha, o Piauí Shopping conta, segundo informações do seu portal, com apenas 34 de um total planejado de 180 lojas.

“Vários lojistas estão protelando suas decisões, para melhor avaliar as duas opções e, também, como forma de obter condições mais vantajosas antes de bater o martelo”, comenta Bueno.

Além de disputar lojistas entre si, a dupla sofre forte concorrência do chamado comércio de rua, formalizado ou não, que é bem diversificado.

Picos conta com as maiores feiras livres do interior Piauí e uma legião de camelôs e ambulantes que será transferida para o Shopping do Povo, prestes a ser aberto em um galpão antes ocupado por uma metalúrgica.

O centro de compras popular contará com 97 boxes, praça de alimentação, banheiros e estacionamento.

“Depois da inauguração do Shopping do Povo, não será mais permitido o comércio nas praças e ruas da cidade”, diz Anderson Coelho, secretário municipal de Turismo, Desenvolvimento Econômico, Ciência e Tecnologia.

Dario Palhares, jornalista especializado em economia e negócios, especial para o Varejoemdia

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Escrito por varejoemdia

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