A inauguração do Ultracenter, em 7 de junho de 1974, repercutiu no Brasil e no exterior.

Do outro lado do Atlântico, o primeiro hipermercado brasileiro de fato e de direito atraiu a atenção de um expert no varejo, Jacques Defforey (1923-2000), cofundador, ao lado do irmão Denis e de Marcel Fournier, do gigante francês Carrefour.

Jacques conhecia e gostava do Brasil.

Na década de 1970, adquiriu uma fazenda de 25 mil hectares voltada à criação de gado, em Mato Grosso, patrimônio que depois seria reforçado com a aquisição de outras quatro propriedades no Nordeste – três em Pernambuco, uma na Bahia –, que se tornariam o maior polo nacional de produção de uvas de mesa.

O empresário gaulês e seus sócios estavam empenhados, naquele início dos anos 1970, em expandir os negócios da rede varejista para além das fronteiras francesas.

A primeira investida no exterior ocorreu na vizinha Espanha, com a inauguração, em novembro de 1973, de um hipermercado em Barcelona, que se tornaria o embrião da cadeia Pryca (acrônimo de precio y calidad), desenvolvida em parceria com o grupo espanhol Simago.

Animado com o sucesso do empreendimento ibérico, o comando do Carrefour resolveu dar um passo mais ousado: cruzar o oceano rumo ao Brasil.

Seus planos originais previam a abertura, pela ordem, de hipermercados no Rio de Janeiro e em Brasília, conforme noticiou o colunista social Tavares de Miranda, do jornal Folha de S.Paulo, em 19 de abril de 1975.

O sucesso do Ultracenter levou Jacques e seus pares, contudo, a reformular o projeto.

Eles concluíram que valia a pena tentar arrematar o hipermercado na zona sul de São Paulo para marcar de forma triunfal a sua chegada ao mercado local.

As negociações se estenderam até o terceiro trimestre daquele ano.

Em 28 de setembro, era divulgado um comunicado oficial assinado pela Ultralar e a Trevo Comércio e Indústria, representante do grupo europeu no país, para anunciar que o controle do estabelecimento mudara de mãos.

Os novos titulares trataram, então, de botar a boca no trombone.

“Chegou Carrefour: a loja internacional que fez o Ultracenter ficar barato mesmo”, diziam anúncios publicados em jornais da capital paulista em novembro.

Hipermercado 2 - Foto 1

Sob nova gestão: o Carrefour assume o Ultracenter

O recém-chegado mexeu com as estruturas do segmento.

Logo de cara, ampliou o prazo de financiamento oferecido pelo antigo dono do hipermercado na Pauliceia de 24 para 36 meses.

E inaugurou, nos dois anos seguintes, outros dois hipers – no Rio e em Brasília, como planejado –, que atraíram legiões de consumidores.

Foi o suficiente para despertar a ira dos barões do varejo nacional.

“Não se justifica a presença de capitais estrangeiros no setor de supermercados”, disparou João Carlos Paes Mendonça, presidente da Associação Brasileira de Supermercados (Abras), em entrevista publicada pela Folha de S.Paulo em 13 abril de 1977.

“Observamos uma ampla penetração de capitais estrangeiros […] absorvendo empresas genuinamente nacionais, além de estabelecer um difícil confronto com a realidade empresarial nos dias atuais e de preocupantes reflexos a médio e longo prazos para o abastecimento brasileiro de gêneros básicos.”

Hipermercado 2 - Foto 2

Apelo ao bolso: preços mais em conta

A rede francesa deu de ombros para a retórica chauvinista da Abras e seguiu em frente.

Em abril de 1978, por ocasião da inauguração de seu hipermercado em Campinas (SP), ela voltou a entrar na alça de mira de entidades do setor.

A Associação dos Supermercados do Estado do Rio de Janeiro (Asserj) decidiu que seus afiliados teriam de suspender as vendas por cartões de crédito a partir de 1º de junho, orientação que foi seguida à risca por todo o seu rebanho, com uma única exceção – o Carrefour.

A Asserj ainda tentou convencer o “rebelde”, mas ficou falando sozinha.

“Como as conversações não obtiveram o resultado esperado por nós, tratamos apenas de cumprir o estatuto, excluindo o Carrefour de nosso quadro no dia 26 de junho passado”, informava uma “alta fonte da diretoria da Asserj” aos leitores do Jornal do Commercio em 29 de julho.

Não há notícia de que a expulsão tenha causado qualquer comoção no QG da operação local ou mesmo na matriz do grupo, em Boulogne-Billancourt, na área metropolitana de Paris.

Sem dar bola para os líderes nativos do varejo, o Carrefour continuou a aceitar cartões e a oferecer prazos dilatados de pagamento e, sobretudo, preços praticamente imbatíveis.

A partir da década de 1980, quando a inflação brasileira chegou às alturas, os franceses fizeram a festa por aqui, vendendo frequentemente mercadorias a preço de custo, ou até abaixo disso, e ganhando fortunas com a aplicação do caixa no overnight.

Dario Palhares, jornalista e escritor, especial para o varejoemdia

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Escrito por varejoemdia

1 comentário

  1. […] Ignorar o enorme apreço da população local pelo crediário custou caro ao projeto do Mappin e, por tabela, aos próprios consumidores. Foi só a partir da segunda metade da década de 1970, com a chegada do Carrefour ao Brasil, que o varejo nacional passou a contar, de fato, com uma rede disposta a sacrificar margens para ganhar na escala das vendas. O gigante francês, no entanto, tratou, além de praticar preços reduzidos, de oferecer prazos dilatados de pagamento, de até 36 meses, uma combinação que irritou concorrentes e entidades do comércio (ver “O Brasil descobre o hipermercado – 2“). […]

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